Anistia

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É preciso que os homens se compadeçam dos anjos
É preciso que se restitua a cegueira plena aos corações
Uma revascularização nas artérias dos sonhos
Esse tecido embrutecido pelos contratos e códigos
É preciso tapar nossos olhos às flores e aos abismos
Para darmos crédito aos poetas que já gozam da fortuna
De uma irreversível catarata cardíaca

É preciso que neguemos as oferendas
E que perdoemos as dívidas que impusemos aos deuses
Para que esse outono desvairado
Deite folhas secas dos cartórios divinos
Timbradas com um carimbo de sangue escrito “perdão”
Para que as recolhamos num ato de amor
Ou as trituremos com os pés, como quem diz:
“Não há o que se perdoar”

É preciso que essa cegueira se espalhe
Para que a humanidade se tateie
Se apare pelos braços a cada queda
Se puxe para a superfície ou se afogue junto
De mãos dadas, em busca da mesma justiça
Do mesmo abrigo, do mesmo pão
Ou da liberdade, se houver liberdade
Entre essa terrível cadeia de irmãos

Contudo, será preciso
Que se adube o solo com lágrimas de amor
Com as folhas timbradas de Deus
Com os tecidos dos corpos, sonhos das almas
Com tudo aquilo que tivermos em mãos, calos
Para que a próxima primavera
Seja enfim a primavera primeira

Crônica: “Domingo”

Ela se aproximou da mesa e, durante alguns segundos todo som que ecoou pela sala foi o dos tacos rígidos de seus saltos vermelhos. Logo, o burburinho da fila retomou o fôlego, permitindo que alguns homens tecessem os comentários a respeito daquele corpo esguio que se delineava sob um leve vestido Animale. Justiça seja feita, o calor era insuportável e o perfume fresco.
A moça seguiu o ritual confiante, entregou o documento com a mão firme, fechando a bolsa, para logo em seguida tornar a abrir. Mas nenhum detalhe abalava sua confiança.
Aproximou-se da urna com um sorriso discreto e, sem tirar os óculos Christian Dior digitou rapidamente os números dos deputados federal, estadual, senadores, governador… O botão verde era acionado com rapidez, o mesário pensou consigo “deve ser bancária”, um dos rapazes da fila sorriu satisfeito um “finalmente alguém que sabe usar essa merda de urna”, a senhora suada resmungou “ninguém presta mesmo, vou anular” e os dois homens esperavam ansiosamente pela oportunidade de elogiar de alguma maneira a princesa que sabia votar.
A tela da urna pedia dois dígitos e a moça sentiu que a mão tremia. Ajeitou os óculos, respirou fundo e foi assim mesmo com o indicador vacilante em direção ao número um. Suas pernas tremiam. Respirou demoradamente e resolveu tirar os óculos. É preciso ver a foto do mito com nitidez. Lembrou da filha, da mãe, da avó que teve um AVC há menos de um mês, da conta do colégio que vai vencer dia 10, mas hoje já é dia 7, a vida passa num piscar de olhos, e ela piscou, tornou a piscar, apertou os olhos e digitou o sete, surpresa por notar que todo seu corpo tremia, suas mãos estavam molhadas, “seria sangue? Que droga, onde foi que lasquei a unha?”
Olhou o rosto do candidato e refletiu sobre a ética. Ficha limpa. Deve ser. O Brasil precisa disso. Vamos disciplinar os jovens. Bandido bom é bandido morto, ou preso, bem preso, tem que acabar com essa putaria toda. “Menina, olha a boca. Cadê seu vocabulário? E se sua filha te ouve falar assim?” Olhou mais uma vez para o candidato e sua mão retomou certo vigor. Nos piores momentos é que revelamos quem somos lá dentro. Esse homem vai ter poder. Minha filha escutou ele dizer algo como “você não merece nem ser estuprada…”
“Mamãe, o que significa estuprada”?
Engoliu seco de novo. Aquela vez, na frente da filha. Dessa vez, na frente da urna. Atrás do biombo. Ainda bem.
Será que o ódio pode se multiplicar? Não, ele não terá poder para isso. Temos que parar o PT a qualquer custo. Aquela vadia defendia bandidos… O que você queria que ele fizesse? Citasse Platão? Sim, Platão! “Muitos odeiam a tirania apenas para que possam estabelecer a sua.“ – lembrou-se de um aforismo que lera na apostila da filha.
Esse filho da puta deveria ter respondido com mais sabedoria. Nessa e em outras várias situações.
Pensou em si mesma. Arriscou uma olhadela pelo biombo e um rapaz que se coçava a fitou com lascívia. Pensou em si.
Inevitável, ocorreu que algum monstro pudesse tocar sua criança.
Onde estará nossa segurança?
Daremos armas a todos, mas quem dará a moral?
Faremos tratados com quem?
Quero mesmo me defender de alguns imbecis com armas, sendo que posso educar as próximas gerações para que haja menos imbecis?
Lembrou que em casa, a filha sorria. Estava segura.
Alguém na fila vociferava e ela apertou o botão.
CORRIGE.
A foto desapareceu.
Ela colocou os óculos e o melhor sorriso. Sempre há tempo.
Refez o voto e o semblante, apertou o verde com a confiança que a consciência oferece aos justos quando a carga é menor.
A fila seguiu em frente.

Carminha Dolores

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O sonho dela era ser cantora
Lírica
Desde pequena, cresceu pequena
Querubim
Carmen, Carminha
Vivos lábios carmim
Voava a vida
Entre aromas de jasmim
Cuida da mãe
Triste criança sem pai
Sonha sozinha
Esfrega a casa
De cada vizinha
Recolhe a migalha de cada patrão
Recobre o corpo
Protege a honra
Chora sozinha
O sonho dela era
Um sonho de amor,
Talvez
O amor não exista.

Será o amor
Aquele bicho incoerente?
Que baforou obscenidades
Ameaças, feridas, urros
Dores e dores mais
Dolores
Dona de sonhos tão vivos
A mãe morta coberta de flores
O ventre crescido
E uns poucos penhores
Voa, Carminha, voa
Nas asas de um querubim
Envelhece sem pátria
Sem muitos sabores
Mas assume-te Carmem!
Com todas as rugas
Com todos os calos
Voa!

Sorrindo um riso carmim
O perfume da pele
É o mesmo jasmim
E o sorriso do filho
Só te sente o amor
Não te sabe o passado
E só te sabe aplaudir
Pelas pernas que tem
Pernas que a ele o destino negou
Empurra teu filho,
Mas canta!
Canta, Carmen
Canta, que o público te ama
O melhor público que já existiu
Que te aplaude com braços frágeis
E um sorriso maior que as partituras
Sorri, Carmem!
Sorri para a vida que
Diga lá, não foi tão dura
Nesse imenso palco
Onde mãe e filho cantam
Um jardim de lírios
Sem que lágrimas molhem as flores

Remoção

É preciso arrancar essa flor-de-lis
Marcada a ferro quente
É preciso amanhecer um novo dia
Com uma nova cicatriz
Mesmo que custe um corte rente
Aos ossos
É preciso arrancar pela raiz
E suportar uma nova dor
Superar essa marca ardente
Talvez arrancando-a do couro
Essa marca também se apague
No coração de quem a desenhou.

O Verbo

Oh deus de Bach
De Isaac, Nietzsche e de Abraão!
Escutai o poeta triste
Mas ignora essa oração!
Oh deus cego e todo tenebroso
Deus ausente e impotente
Ai!
Não tende compaixão
Nem mau, nem bom, mas
Pai!
Pai apenas de geração
Vinde e vede
Vossos templos estão cheios de almas vazias
E de pedidos de perdão
E de pedidos de milagres
Milagres que nunca virão
Pois vossa cria esqueceu
Que vós sois mais que mil sóis
Vós sois apenas um verbo
Uma vez pronunciado
E eternamente perdido
Condenai, senhor! Condenai!
Todas essas blasfêmias
Condenai-me às galés do Universo
Ao eterno trabalho forçado
Remando infinitos
Rimando infinitivos
Pobre de mim!
Condenai todos poetas
Até que num verso tão absurdo quando tu
Alguém encontre o tal verbo perdido

– Bruno Félix

A ponte

não há vencedores
ou perdedores
nesse jogo dos corpos
somos artesãos
com essas ferramentas de carne
construímos juntos
poemas, pontes
poentes.

te penetro a carne
e teus gemidos penetram em mim
nenhuma distância separa o éter
(um abraço de corpos abraça o mundo)
lançamos os pés na terra
no mais profundo
raízes
nossos corpos são água
nossa sede, nossa vida
nossos olhos refletem as cores
matizes

nesse jogo de corpos
ardemos no mesmo fogo
importa saber quem o ateia?
não
à alma não interessa
saber do sangue que corre na veia
do calor da carne, da ereção
à alma interessa o que vibra
a melodia de cada som

com nossos instrumentos de carne
escreveremos canções
a cada toque de pele
encontraremos escalas
regidas por movimentos
sublinhadas por respirações
até que os anjos as ouçam
atravessem essa ponte
e unam-se a nós
no mesmo poema
no mesmo tom
no poente