Anistia

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É preciso que os homens se compadeçam dos anjos
É preciso que se restitua a cegueira plena aos corações
Uma revascularização nas artérias dos sonhos
Esse tecido embrutecido pelos contratos e códigos
É preciso tapar nossos olhos às flores e aos abismos
Para darmos crédito aos poetas que já gozam da fortuna
De uma irreversível catarata cardíaca

É preciso que neguemos as oferendas
E que perdoemos as dívidas que impusemos aos deuses
Para que esse outono desvairado
Deite folhas secas dos cartórios divinos
Timbradas com um carimbo de sangue escrito “perdão”
Para que as recolhamos num ato de amor
Ou as trituremos com os pés, como quem diz:
“Não há o que se perdoar”

É preciso que essa cegueira se espalhe
Para que a humanidade se tateie
Se apare pelos braços a cada queda
Se puxe para a superfície ou se afogue junto
De mãos dadas, em busca da mesma justiça
Do mesmo abrigo, do mesmo pão
Ou da liberdade, se houver liberdade
Entre essa terrível cadeia de irmãos

Contudo, será preciso
Que se adube o solo com lágrimas de amor
Com as folhas timbradas de Deus
Com os tecidos dos corpos, sonhos das almas
Com tudo aquilo que tivermos em mãos, calos
Para que a próxima primavera
Seja enfim a primavera primeira

Carminha Dolores

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O sonho dela era ser cantora
Lírica
Desde pequena, cresceu pequena
Querubim
Carmen, Carminha
Vivos lábios carmim
Voava a vida
Entre aromas de jasmim
Cuida da mãe
Triste criança sem pai
Sonha sozinha
Esfrega a casa
De cada vizinha
Recolhe a migalha de cada patrão
Recobre o corpo
Protege a honra
Chora sozinha
O sonho dela era
Um sonho de amor,
Talvez
O amor não exista.

Será o amor
Aquele bicho incoerente?
Que baforou obscenidades
Ameaças, feridas, urros
Dores e dores mais
Dolores
Dona de sonhos tão vivos
A mãe morta coberta de flores
O ventre crescido
E uns poucos penhores
Voa, Carminha, voa
Nas asas de um querubim
Envelhece sem pátria
Sem muitos sabores
Mas assume-te Carmem!
Com todas as rugas
Com todos os calos
Voa!

Sorrindo um riso carmim
O perfume da pele
É o mesmo jasmim
E o sorriso do filho
Só te sente o amor
Não te sabe o passado
E só te sabe aplaudir
Pelas pernas que tem
Pernas que a ele o destino negou
Empurra teu filho,
Mas canta!
Canta, Carmen
Canta, que o público te ama
O melhor público que já existiu
Que te aplaude com braços frágeis
E um sorriso maior que as partituras
Sorri, Carmem!
Sorri para a vida que
Diga lá, não foi tão dura
Nesse imenso palco
Onde mãe e filho cantam
Um jardim de lírios
Sem que lágrimas molhem as flores

O Verbo

Oh deus de Bach
De Isaac, Nietzsche e de Abraão!
Escutai o poeta triste
Mas ignora essa oração!
Oh deus cego e todo tenebroso
Deus ausente e impotente
Ai!
Não tende compaixão
Nem mau, nem bom, mas
Pai!
Pai apenas de geração
Vinde e vede
Vossos templos estão cheios de almas vazias
E de pedidos de perdão
E de pedidos de milagres
Milagres que nunca virão
Pois vossa cria esqueceu
Que vós sois mais que mil sóis
Vós sois apenas um verbo
Uma vez pronunciado
E eternamente perdido
Condenai, senhor! Condenai!
Todas essas blasfêmias
Condenai-me às galés do Universo
Ao eterno trabalho forçado
Remando infinitos
Rimando infinitivos
Pobre de mim!
Condenai todos poetas
Até que num verso tão absurdo quando tu
Alguém encontre o tal verbo perdido

– Bruno Félix

Long Distance Blues

Talvez um beijo fira mais que a ausência
E a distância, antítese do abraço
Seja nossa forma de permanência
Diferentes canções no mesmo compasso

Há vida na arte do desencontro
Embora tenhamos nos encontrado
Foi onde morri recostado em teu ombro
A arte da vida é morrer tendo amado

De longe renasço e vejo que cresce
Em viço, cores, aromas e prece
Sinto a tua presença e te alimento

Teu riso me faz sentir alegria
Permite-me o sonho de que algum dia
Ausência não seja nenhum ferimento

Poda

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Era uma roseira diferente:
Seus espinhos brotavam para dentro
Ninguém os via
Ninguém os tocava
Ninguém os sabia
E a roseira, na tentativa de gritar
Abria rosas indescritíveis
Em noites de lua, sonhava podas
Todas bem rente ao chão
Mas ninguém a podava
Abriram espaço em seu jardim
Para que todos a contemplassem
Conheceu a solidão
Seus espinhos cresciam
A dilaceravam por dentro
A cada nova estação
E ela gritava dezenas de rosas
Uma lágrima em cada botão
Quando afagavam seu caule liso
Ela se contorcia de dor
Sentia os espinhos cravando
Queixava-se abrindo outra flor
Um dia, os espinhos já grandes
Formaram nódulos pelo seu corpo
Uma espécie de tumor
Cansada, não abriu flores
Podaram-na rente ao chão
E ela conheceu um pouco
Daquilo que é não ter dor
Quis mostrar uma folha ao sol
Mas a coragem faltou
Recusou a água
Recusou o adubo
Rejeitou a terra
A mesma terra que a criou
Ali desapareceu
E todo o jardim se abriu em flor

Viva o Brasil

Apesar de tudo
Viva o Brasil
Que nos abriga
Nos alimenta
Nos aquece
Sob o anil do céu
De sua bandeira
Da mesma maneira
Que um bordel
Abriga cada rameira

Viva o Brasil!
Que nos explora
E nos bofeteia
Que nos esfola
E nos prende à peia
E assim mesmo
Ficamos
Amamos
Na esperança de que em alguma noite
Alguém se iluda
Ou até nos ame de verdade
Tire a gente dessa vida
Arrume os nossos dentes
E nos deite eternamente
Em esplêndidos lençóis
Ao som do mar
Em alguma terra distante

Pela janela

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A gente cresce
E aprende a ver o mundo
Pela janela de um trem
(As coisas vão ficando pequenas
Conforme nos afastamos)

Alguns poemas vão deixando de rimar
Algumas pessoas seguem ao nosso lado
Mas apenas algumas
Olhando a paisagem diminuir pela mesma janela
Dividindo o mesmo olhar
Vendo a maioria que fica no chão

Enquanto meu disco voador não chega
Habituei-me a ver
Essa grande maioria
Pela janela de um avião