Long Distance Blues

Talvez um beijo fira mais que a ausência
E a distância, antítese do abraço
Seja nossa forma de permanência
Diferentes canções no mesmo compasso

Há vida na arte do desencontro
Embora tenhamos nos encontrado
Foi onde morri recostado em teu ombro
A arte da vida é morrer tendo amado

De longe renasço e vejo que cresce
Em viço, cores, aromas e prece
Sinto a tua presença e te alimento

Teu riso me faz sentir alegria
Permite-me o sonho de que algum dia
Ausência não seja nenhum ferimento

A criação em quatro noites

Era a música complexa
Demais para a noite
Para as criaturas da madrugada
E Deus disse: “Haja Blues”
Deus ouviu que o Blues era bom,
Viu que dançavam, bebiam, fumavam,
Amavam no embalo do som
Assim foi a primeira noite

Então Deus separou o simples
Do sofisticado. Deu a estes o sopro
E um belo teclado. Deu mais swing nos pés
E disse maravilhado: Faça-se o Jazz.
Passaram-se tarde e manhã
E nasceram mais melodias
Deus viu que aquilo era bom
Que a Criação era sã

Ora, Deus não quis que perdessem
Aquela bela harmonia no ar
Então no terceiro dia
Disse: “Ajuntem tudo num só lugar
As harmonias e melodias dos homens
Encham discos com as canções
Que sejam férteis e multipliquem-se!
Encham a Terra com a Boa Música.”

E Deus viu tudo o que havia feito
E tudo havia ficado muito bom
E na quarta noite a criação
Por si só fez um novo toque
E Deus, ouvindo tal emoção
Abençoou o inédito Rock
E dizendo assim o santificou:
Let there be rock! Let it roll, baby, roll

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Poker Face: O Rio, A Vida e o Ventilador.

É chegada a fatídica hora
De jogar tudo no ventilador
De colocar as cartas na mesa
A hora é sempre, é quando, é agora.
E o que a vida me deu?
Heróis.
Na mão, um par de ases
Diamante e Coração
A ansiedade agora corrói.
Mas a vida, ah, a vida
Logo no flop me fez iludir
Mostrou-me Valete, Rei e Rainha
Heróis
Espada, Coração e Diamante
Fizaram-me feliz o semblante
Não soube jogar.
Eu teria ao final um flush?
Hush, hush…
hush hush somebody’s calling my name
O amanhã trouxe
Sombrio turn
Now I’m not the same…
Mas a vida, me deu esperanças
Me deu coragem
E falsas lembranças
O Rei mente,
A Dama finge
Mas eu tenho meu par de ases
E a vida quis dar-me asas.
Decifra, ou sucumbe à esfinge!
Joga!
Joga alto!
Aposta teu sonho
Tuas escolhas
Não te encolhas
Sonha, joga, vive!
E joguei.
Com todas as forças, joguei.
E agora, o Rio se abre
Vim até aqui cantando:
Take me to the river
And wash me down
Mas no rio, amigos,
Não há Ases:
Há Valete de Paus.
Não fiz o meu jogo
E o mundo sorri.
É chegado o fatídico dia.
Eu caminhava sob um sol frio
Na mente, toda a poesia
Que agora transcrevo.
Não há mais fichas.
Já não acredito no Rei
Que Dama e Valete finjam
De minha parte, não fingirei
Não mais pedirei que alguém jogue
É hora de me levantar
Sacudir o smoking
Com a dignidade de um bom perdedor.
Hei de sair por onde entrei.
Passarei de cabeça erguida sem fitar o guichê
Na saída pretendo apenas tirar as mãos suadas dos bolsos
E descansar um minuto
Embaixo do ventilador.

7

Ex citando Drummond

Ah, essa anja torta
Que cavalga a nuca do poeta
Abriu-se majestosa e circunspecta
A ele, isso pouco importa

Bom dia, disse a moça
Mas ele não respondia
Na praia, na ventania
A moça mostrava a coxa,

A moça mostrava a nádega
Ao poeta circunspecto
Que sentado, de corpo erecto
Seduziu a garota pândega

Ela trepou a lhe cavalgar
Ela procurava alegria
Cabe a nós fazer poesia
nesta janela sobre o mar.

 

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Um método simples e infalível que te transformará em um moderno (e incompreendido) poeta em minutos!

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Fui surpreendido recentemente por um movimento artístico do início do século XX e que havia passado tanto tempo despercebido em minha vida…

Trata-se do Dadaísmo, ou Movimento Dadá, inciado em Zurique… mas isso é história, deixo para quem muito se interessar fazer um estudo mais aprofundado por conta própria, de modo que esse post não fique demasiado extenso.

Como eu dizia, recebi as seguintes instruções ensinadas pelo pioneiro Tristan Tzara, ao que resolvi prontamente experimentar para checar o resultado estético. Note que a colagem acima é majoritariamente composta de adornos que julguei necessários dada a psicodelia do texto formado, que transcrevo para que fique evidente o notável conteúdo que se formou para minha surpresa. Antes, deixo o tutorial do dadaísmo para quem quiser se aventurar por essas veredas:

  • Pegue um jornal.
  • Pegue a tesoura.
  • Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
  • Recorte o artigo.
  • Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
  • Agite suavemente.
  • Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
  • Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
  • O poema se parecerá com você.
  • E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

Agora, segue a transcrição. Note que, apesar da loucura, este poema se mostrou rico em sentido, com versos por vezes emblemáticos, e de muita sabedoria. Coincidência? Continuo acreditando que não existem coincidências…

De Beleza

As moças roliças biologia evolutiva

independentemente de como diriam que parece

nos ajuda, ne sais quoi, no terreno feliz,

simetria. tornarmos mais deleitosa.

nem sem até mesmo e da sociada

entender por que o aspecto bonito. essa percepção de uma flor, muito comum,

a reunião proporções   Há, de fato, a beleza sublimes,

Uma forma debruça verdadeiros, harmonia e uma obra de arte – existencial

gosto ou visão do vago se conecta nos aspectos evidentes de inteligência a outros agradáveis

questão de idealmente estar com unidade,

De acordo com o mais É preciso de uma pessoa, ou conhecimento sobre tudo da vida

Mas, os franceses, ainda que, a experiência sempre ao que há de filosófico

estudo das definições e não – oque conceitos portanto, concreta – sensível.

algo é menos mais apenas intuir que ultrapassa beleza inclusive, da metafísica.