Poda

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Era uma roseira diferente:
Seus espinhos brotavam para dentro
Ninguém os via
Ninguém os tocava
Ninguém os sabia
E a roseira, na tentativa de gritar
Abria rosas indescritíveis
Em noites de lua, sonhava podas
Todas bem rente ao chão
Mas ninguém a podava
Abriram espaço em seu jardim
Para que todos a contemplassem
Conheceu a solidão
Seus espinhos cresciam
A dilaceravam por dentro
A cada nova estação
E ela gritava dezenas de rosas
Uma lágrima em cada botão
Quando afagavam seu caule liso
Ela se contorcia de dor
Sentia os espinhos cravando
Queixava-se abrindo outra flor
Um dia, os espinhos já grandes
Formaram nódulos pelo seu corpo
Uma espécie de tumor
Cansada, não abriu flores
Podaram-na rente ao chão
E ela conheceu um pouco
Daquilo que é não ter dor
Quis mostrar uma folha ao sol
Mas a coragem faltou
Recusou a água
Recusou o adubo
Rejeitou a terra
A mesma terra que a criou
Ali desapareceu
E todo o jardim se abriu em flor

Micro ensaios I: da escrita

Micro ensaios:

I – Da escrita

É mister o equilíbrio
Entre o doido e o douto
Pra que se crie um novo Dosto
Buscar a perfeição
Até que se perca a feição
Afeiçoar-se à escrita
Escravo, síndrome de Estocolmo
Estocando a duras penas
É preciso vida e erudição
Mas cuidado:
O excesso de rudimentos
Pode torná-lo rude.

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Imagem: Leonid Pasternak – The passion of creation, óleo sobre tela.

Viva o Brasil

Apesar de tudo
Viva o Brasil
Que nos abriga
Nos alimenta
Nos aquece
Sob o anil do céu
De sua bandeira
Da mesma maneira
Que um bordel
Abriga cada rameira

Viva o Brasil!
Que nos explora
E nos bofeteia
Que nos esfola
E nos prende à peia
E assim mesmo
Ficamos
Amamos
Na esperança de que em alguma noite
Alguém se iluda
Ou até nos ame de verdade
Tire a gente dessa vida
Arrume os nossos dentes
E nos deite eternamente
Em esplêndidos lençóis
Ao som do mar
Em alguma terra distante

eBook “Brasil. Historias en pedazos”

Já está disponível para download gratuito o eBook “Brasil. Historias en pedazos” editado por Ediciones Ambulantes.
A obra recolhe os contos vencedores e finalistas do I Concurso de relato breve “cuéntame un cuento”, promovido pelo Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, cujo resultado foi publicado no passado mês de maio no Palácio de Maldonado.
Dentre os contos publicados, encontra-se “o mandado de prisão”, de minha autoria!

Para fazer o download gratuito do livro basta clicar na imagem abaixo.

Boa leitura!

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Soneto Místico

maxresdefaultMergulha na luz que vem do Oriente
Emerge na terra que te produziu
Flutua na água, domina a corrente
Reflete no fogo a centelha anil

Encontra a magia que anima o ser
Lapida essa pedra, tal nobre artesão
Deita-te em núpcias, sagrado prazer
Revive em carne, amor, comunhão

Dentro do espelho há mais que um portal
Servindo ao mundo descobrirás
O domínio da vida através do amor

E verás que a Cruz não é só do Senhor
Saberás da balança, do bem e do mal
E no teu coração abrirá uma flor

O Grande Mestre

À procura do Grande Mestre, pela sétima vez o buscador entrou no templo onde dezenas de monges meditavam no átrio, com suas vestimentas simples, porém impecáveis. Silenciosa e respeitosamente, um homem velho limpava o piso com um esfregão, tarefa que foi interrompida quando o neófito lhe perguntou:

— Bom dia. Nos últimos dias vi o senhor fazendo a limpeza e  jardinagem à volta do templo… Trabalha aqui há muito tempo?

— Sim. — e retomou a tarefa.

— Desculpe a interrupção, mas é que tenho vindo dia após dia em diferentes horários em busca do Grande Mestre, mas nunca o encontro.

— Oh! — fez o faxineiro interrompendo a tarefa e apoiando os braços na haste da mopa. — O Mestre anda sempre tão ocupado…

— Sim, mas desejo muito falar com ele. Venho de longe em busca dos ensinamentos dele, pois a fama da enorme sabedoria desse líder tem se espalhado como as sementes de dente-de-leão ao vento… Já faz sete dias que venho…

— Não me lembro de lhe ver aqui na segunda. — interrompeu o faxineiro.

— Pois eu estive aqui pela manhã, quando o senhor varria o pátio do templo, não se lembra?

— Ah… Tem razão. Desculpe-me, tenho a memória tão fraca… E depois?

— Retornei na terça-feira. Duas vezes.

— Não recordo… Acho que terça foi meu dia de folga.

— De maneira alguma. Deve ter sido o dia que o senhor mais trabalhou! Esteve o dia todo cruzando o pátio com um balde de madeira que levava ao poço e trazia cheio até o alojamento. Ainda lhe vi estendendo roupas no varal pouco antes do meio dia e voltando para as recolher quando o sol estava se pondo. Disseram-me que o Grande Mestre costuma ficar a sós no Templo às terças, por isso fiz plantão aqui.

— Acho uma lástima o Mestre ser tão ocupado… Um bom dia para conversar com ele é a quarta-feira…

— Mas quarta-feira o senhor mesmo me disse que ele só poderia atender no domingo! Não se lembra?

— Não…

— Como não? Conversamos lá fora!

— Onde?

— Na horta onde o senhor colhia uns tomates.

— Ah, tem razão. Quarta eu estive fazendo a jardinagem e adubando a horta. Agora me lembro, havia belos tomates. Hum… Isso me lembrou uma coisa… Preciso ir para a cozinha, estou atrasado! Vou preparar uma sopa de legumes para os monges, que estão meditando há horas. Além do mais, hoje é domingo, sempre gostam de um bom caldo aos domingos. Até logo!

Dizendo isso o velho se retirou.

O buscador esperou por algumas horas, até que o primeiro monge se levantou e veio em sua direção. Mal se cumprimentaram, o monge perguntou:

— O que faz aqui, jovem?

— Vim em busca do Grande Mestre. Será que pode me levar até ele?

— Sim, será um prazer. Venha.

O monge guiou o rapaz até o refeitório, onde o velho colocava sobre a mesa tigelas cheias de sopa.

— Mestre, esse rapaz deseja conversar com o senhor. — disse o monge ao cozinheiro fazendo uma breve reverência.

O velho sorriu para ambos:

— Será um prazer, embora eu pense que já conversamos o suficiente. Sente-se, jovem buscador. Permita-me servir-lhe um pouco de sopa.

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Pela janela

ovni

A gente cresce
E aprende a ver o mundo
Pela janela de um trem
(As coisas vão ficando pequenas
Conforme nos afastamos)

Alguns poemas vão deixando de rimar
Algumas pessoas seguem ao nosso lado
Mas apenas algumas
Olhando a paisagem diminuir pela mesma janela
Dividindo o mesmo olhar
Vendo a maioria que fica no chão

Enquanto meu disco voador não chega
Habituei-me a ver
Essa grande maioria
Pela janela de um avião