O Verbo

Oh deus de Bach
De Isaac, Nietzsche e de Abraão!
Escutai o poeta triste
Mas ignora essa oração!
Oh deus cego e todo tenebroso
Deus ausente e impotente
Ai!
Não tende compaixão
Nem mau, nem bom, mas
Pai!
Pai apenas de geração
Vinde e vede
Vossos templos estão cheios de almas vazias
E de pedidos de perdão
E de pedidos de milagres
Milagres que nunca virão
Pois vossa cria esqueceu
Que vós sois mais que mil sóis
Vós sois apenas um verbo
Uma vez pronunciado
E eternamente perdido
Condenai, senhor! Condenai!
Todas essas blasfêmias
Condenai-me às galés do Universo
Ao eterno trabalho forçado
Remando infinitos
Rimando infinitivos
Pobre de mim!
Condenai todos poetas
Até que num verso tão absurdo quando tu
Alguém encontre o tal verbo perdido

– Bruno Félix

Mantra

Sou o camarão que dorme
E a onda não leva
Sou a vara que o vento não quebra
Sou só, mesmo assim sou feixe

Sou onde não chega a regra
Não caio na rede e sou peixe
Pela boca que ladra e morde
Nem morte, nem Roma: me deixe!

Sou o cego que teima em ver
Gato pardo quando quero ser
Tomo banho em água fria
Louco livre de manias

Sou o espeto de ferro
Sou o ferreiro e o ferido
Sou humano quando erro
E as batatas do vencido

Sou o alfa e o ômega onde piso
O primeiro e o último riso
O fogo que não faz fumaça
Caçador no dia da caça

Sou cabeça e sentença
A ocasião do perdão
O monge sem hábito
E sigo só:
Fazendo verão

A culpa é das estrelas?

Em um ponto, sou meio Gil: “Até que nem tanto esotérico assim…”
Porém, às vezes sinto que sou um raro, ou não tão raro exemplar da espécie, que reafirma a possibilidade dos astros interferirem cá em nossa vida.
A corda quebra no meio do palco e não tem uma de reserva, tiro de letra.
Tendinite, ou essa dor do joelho que apareceu e gostou de ficar.
Pode ser, que seja, tratemos disso tudo.
É uma gastrite, ok. A vida tem dessas coisas, pode ter sido os tequila (afinal, aqui se faz, aqui se paga). Tiro de letra.

Ah, seu mundo virou de ponta cabeça, as pessoas que você sempre amou te enganaram. Tudo bem, superarei.
O problema é que, dentre todas rasteiras que a vida pôde me aplicar, creio que a mais perversa aconteceu em 1983:
Nascer pisciano foi sacanagem.
Quando está feliz, chega a se questionar. Ou comemora demais, o que é sempre um erro.
Às vezes, quando está mal, logo quer meter um chumbo nos miolos. Mas não. Você é de peixes. Magoaria alguns. Faria sujeira. Afinal, quem vai querer recolher seus miolos?

Tiro de letra aqueles problemas elencados acima? Claro. É a vida, como cantou Frank. Mas aqui dentro, nesse mundo que só o pisciano conhece… Ah, eu morro de março a março.
Enfrentaria uma eternidade de altos e baixos se fosse, sei lá, de Sagitário.
Mas, por Deus! Tinha que ser de peixes?
Nem nos Cavaleiros do Zodíaco isso prestou, até pra bater nos outros o cara da última casa usava rosas.
De agora em diante, quando eu ver uma grávida querendo parir alguém entre 20 de Fevereiro e 20 de Março, vou gritar pro neném: “Aguenta mais uns dias aí dentro! Segura a onda, porque Áries é mais legal até em anime japonês!”

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Filosofando: à direita do Pai.

Meu nome é Bruno e garanto que, assim como o inferno está cheio de boas intenções, à direita do Pai certamente há toda sorte de inventores e artistas, o que demanda uma vastidão de cadeiras (quisera eu que esta fosse a prova do infinito conceitual) para que os mesmos tomem confortável assento eterno.
Imagino que ali (agora adentro o ramo das suposições), algum querubim já tenho posto a harpa de lado ao ouvir Bach e Mozart em pleno embate melódico com Hendrix e Stevie Vaughan, em um sarau onde BB King, T-Bone, Chester Burnett e outros parecem desatentos ao tema, porquanto questionam Rev. Gary Davis acerca das possibilidades jurídicas de trazerem Robert Johnson às mesmas cadeiras.
Percorrendo o amplo (infinito?) salão, e claro, ainda à direta do Pai, verifica-se que certamente o Filho não precisou operar nenhuma transmutação de líquidos. Isso porquê há séculos já tomaram assento os inventores do vinho e da cerveja.
E tudo segue de bom a melhor, pois quem inventou o ar condicionado também já deve ter sua cadeira em bom lugar.

 

 

 

 

 

 

 

5 novos poemas bem brasileiros.

Sem título

Para ler os outros 4 poemas, basta clicar no “Noticiário” acima.

Sobre o poema “Noticiário”:

“Muitas vezes, a maneira como se noticia algo alimenta monstros que a humanidade quer (e precisa) derrotar. Focalizam argumentos em situações que incitam irmãos contra irmãos; de maneira a gerar um ódio maior entre as pessoas, em substituição ao horror que deveríamos sentir em face do próprio ato de matar, por exemplo. Mas o mundo parece gostar de polêmica. De sensacionalismo. Sem perceber que isso tudo não passa de um câncer que o corrói.”

Com esperança de dias melhores,

Bruno Felix.