Mantra

Sou o camarão que dorme
E a onda não leva
Sou a vara que o vento não quebra
Sou só, mesmo assim sou feixe

Sou onde não chega a regra
Não caio na rede e sou peixe
Pela boca que ladra e morde
Nem morte, nem Roma: me deixe!

Sou o cego que teima em ver
Gato pardo quando quero ser
Tomo banho em água fria
Louco livre de manias

Sou o espeto de ferro
Sou o ferreiro e o ferido
Sou humano quando erro
E as batatas do vencido

Sou o alfa e o ômega onde piso
O primeiro e o último riso
O fogo que não faz fumaça
Caçador no dia da caça

Sou cabeça e sentença
A ocasião do perdão
O monge sem hábito
E sigo só:
Fazendo verão

eBook “Brasil. Historias en pedazos”

Já está disponível para download gratuito o eBook “Brasil. Historias en pedazos” editado por Ediciones Ambulantes.
A obra recolhe os contos vencedores e finalistas do I Concurso de relato breve “cuéntame un cuento”, promovido pelo Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, cujo resultado foi publicado no passado mês de maio no Palácio de Maldonado.
Dentre os contos publicados, encontra-se “o mandado de prisão”, de minha autoria!

Para fazer o download gratuito do livro basta clicar na imagem abaixo.

Boa leitura!

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O Grande Mestre

À procura do Grande Mestre, pela sétima vez o buscador entrou no templo onde dezenas de monges meditavam no átrio, com suas vestimentas simples, porém impecáveis. Silenciosa e respeitosamente, um homem velho limpava o piso com um esfregão, tarefa que foi interrompida quando o neófito lhe perguntou:

— Bom dia. Nos últimos dias vi o senhor fazendo a limpeza e  jardinagem à volta do templo… Trabalha aqui há muito tempo?

— Sim. — e retomou a tarefa.

— Desculpe a interrupção, mas é que tenho vindo dia após dia em diferentes horários em busca do Grande Mestre, mas nunca o encontro.

— Oh! — fez o faxineiro interrompendo a tarefa e apoiando os braços na haste da mopa. — O Mestre anda sempre tão ocupado…

— Sim, mas desejo muito falar com ele. Venho de longe em busca dos ensinamentos dele, pois a fama da enorme sabedoria desse líder tem se espalhado como as sementes de dente-de-leão ao vento… Já faz sete dias que venho…

— Não me lembro de lhe ver aqui na segunda. — interrompeu o faxineiro.

— Pois eu estive aqui pela manhã, quando o senhor varria o pátio do templo, não se lembra?

— Ah… Tem razão. Desculpe-me, tenho a memória tão fraca… E depois?

— Retornei na terça-feira. Duas vezes.

— Não recordo… Acho que terça foi meu dia de folga.

— De maneira alguma. Deve ter sido o dia que o senhor mais trabalhou! Esteve o dia todo cruzando o pátio com um balde de madeira que levava ao poço e trazia cheio até o alojamento. Ainda lhe vi estendendo roupas no varal pouco antes do meio dia e voltando para as recolher quando o sol estava se pondo. Disseram-me que o Grande Mestre costuma ficar a sós no Templo às terças, por isso fiz plantão aqui.

— Acho uma lástima o Mestre ser tão ocupado… Um bom dia para conversar com ele é a quarta-feira…

— Mas quarta-feira o senhor mesmo me disse que ele só poderia atender no domingo! Não se lembra?

— Não…

— Como não? Conversamos lá fora!

— Onde?

— Na horta onde o senhor colhia uns tomates.

— Ah, tem razão. Quarta eu estive fazendo a jardinagem e adubando a horta. Agora me lembro, havia belos tomates. Hum… Isso me lembrou uma coisa… Preciso ir para a cozinha, estou atrasado! Vou preparar uma sopa de legumes para os monges, que estão meditando há horas. Além do mais, hoje é domingo, sempre gostam de um bom caldo aos domingos. Até logo!

Dizendo isso o velho se retirou.

O buscador esperou por algumas horas, até que o primeiro monge se levantou e veio em sua direção. Mal se cumprimentaram, o monge perguntou:

— O que faz aqui, jovem?

— Vim em busca do Grande Mestre. Será que pode me levar até ele?

— Sim, será um prazer. Venha.

O monge guiou o rapaz até o refeitório, onde o velho colocava sobre a mesa tigelas cheias de sopa.

— Mestre, esse rapaz deseja conversar com o senhor. — disse o monge ao cozinheiro fazendo uma breve reverência.

O velho sorriu para ambos:

— Será um prazer, embora eu pense que já conversamos o suficiente. Sente-se, jovem buscador. Permita-me servir-lhe um pouco de sopa.

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Concurso de Contos em Salamanca, Espanha: Publicação e certificado.

Algumas semanas atrás eu estive aqui comunicando o resultando do primeiro concurso de relatos breves Cuéntame un Cuento, promovido pelo Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, Espanha.

Na ocasião, fiquei muito feliz em saber que meu conto “O mandado de prisão” foi selecionado como primeiro finalista (LINK). Não bastasse essa alegria, fui surpreendido essa semana com um belo certificado e com o contrato de edição, o que marca minha estréia no gênero de contos: a antologia será publicada em e-Book, e o contrato já está entregue devidamente assinado!

Assim que o livro ficar pronto, prometo trazer o link para que todos possam ler!

Abraços, com meus votos de paz, equilíbrio e literatura sempre!

Bruno Félix.

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“Cuéntame un cuento”

Muito feliz! Saiu o resultado do I Concurso de relato breve do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca, Espanha, que recebeu cerca de 600 contos de escritores de dez países diferentes: O meu conto “O mandado de prisão” foi o primeiro finalista! Agora é só aguardar a publicação dos textos para partilhar aqui com vocês!

Clique na imagem abaixo para acessar o resultado do concurso no site do Centro de Estudios Brasileños:

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Lançamentos agendados!

A Menina e o Equilibrista, meu segundo livro, já tem as datas de lançamento definidas: Dia 19/04, no Unico Lounge Bar em São Sebastião do Paraíso/MG, o lugar mais aconchegante da cidade, ideal para falarmos de coisas amenas como literatura e cheiro de livro novo!

Clicando na imagem abaixo, você será redirecionado para a página do evento, onde constam todas as informações!17390599_270165403440688_1327815085610414834_o.jpg

Na sequência, seguirei para Poços de Caldas, dia 06/05, onde o livro também será apresentado e autografado durante um dos maiores e mais importantes festivais literários do país: o FLIPOÇOS (clique na imagem para visitar o site oficial e conhecer toda a programação, que, como de praxe está incrível):

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Nos vemos lá!

Abraços!

O Gato Pardo

27c99ac3f6922fe14865e1d2033f3e88No meu escritório mora um gato pardo
Que só faz dormir e comer
E quando é madrugada
E não há mais o que fazer
Esse gato sai
Em busca do rato mais gordo
E mais raro:
O rato envenenado
Que corre desesperado em busca de água
Enquanto o veneno lhe corrói as tripas.
Presa fácil
E o gato lhe come pelas beiradas
Deixando de sobremesa a gelatina amarga de suas entranhas
Estranho hábito do gato
Vai se deliciando naquela acidez fétida
Até começar a sentir dores abdominais
Então salta no muro, cai, rola, ronrona e rosna
Ele grita e geme
Esfrega a cara no chão
E passa a noite a ver estrelas
Estranhas, entranhas, devaneios
Entrelinhas.
Depois volta de manhã cambaleante
Ele sabe que há ração em algum lugar
Ele bebe água, bebe leite
Dorme.
Finge que nada aconteceu
Quando acorda, procura decidir se vale a pena
Sustentar seu terrível vício
Afinal de contas, levou uma vida de exercício
Para que seu organismo se adaptasse

Eu coloco papel na máquina
Me sirvo de rum
Olho para o gato
Ele dorme, mas me olha com um canto de olho
Sua língua descansa fora da boca
Deve estar morto – penso
E organizo os sons de um haikai
O gato acorda, levanta, ronrona
Está magro, machucado
Feito o poema que atiro no lixo, amassado
O gato se lembra de comer a ração toda
À noite ele há de lembrar de não comer o rato todo
– Pode ser fatal.
Mas mesmo assim ele sai.
Ele não sente cheiro de ratos
Mas mesmo assim ele sai.
Nem tudo o que escrevo eu guardo
Mas mesmo assim eu sou pai
Mesmo quando esqueço
O significado de cada metáfora
Também não tomo a garrafa toda
– Um poema pode ser fatal.