O Verbo

Oh deus de Bach
De Isaac, Nietzsche e de Abraão!
Escutai o poeta triste
Mas ignora essa oração!
Oh deus cego e todo tenebroso
Deus ausente e impotente
Ai!
Não tende compaixão
Nem mau, nem bom, mas
Pai!
Pai apenas de geração
Vinde e vede
Vossos templos estão cheios de almas vazias
E de pedidos de perdão
E de pedidos de milagres
Milagres que nunca virão
Pois vossa cria esqueceu
Que vós sois mais que mil sóis
Vós sois apenas um verbo
Uma vez pronunciado
E eternamente perdido
Condenai, senhor! Condenai!
Todas essas blasfêmias
Condenai-me às galés do Universo
Ao eterno trabalho forçado
Remando infinitos
Rimando infinitivos
Pobre de mim!
Condenai todos poetas
Até que num verso tão absurdo quando tu
Alguém encontre o tal verbo perdido

– Bruno Félix

A ponte

não há vencedores
ou perdedores
nesse jogo dos corpos
somos artesãos
com essas ferramentas de carne
construímos juntos
poemas, pontes
poentes.

te penetro a carne
e teus gemidos penetram em mim
nenhuma distância separa o éter
(um abraço de corpos abraça o mundo)
lançamos os pés na terra
no mais profundo
raízes
nossos corpos são água
nossa sede, nossa vida
nossos olhos refletem as cores
matizes

nesse jogo de corpos
ardemos no mesmo fogo
importa saber quem o ateia?
não
à alma não interessa
saber do sangue que corre na veia
do calor da carne, da ereção
à alma interessa o que vibra
a melodia de cada som

com nossos instrumentos de carne
escreveremos canções
a cada toque de pele
encontraremos escalas
regidas por movimentos
sublinhadas por respirações
até que os anjos as ouçam
atravessem essa ponte
e unam-se a nós
no mesmo poema
no mesmo tom
no poente

Pré Venda: POEMAS CLASSIFICADOS

A intenção era difundir a literatura e fazer mais gente descobrir o gosto pela poesia.
A ideia era publicar poemas na sessão de classificados do jornal regional.
O editor aderiu. O público também!
Logo os #PoemasClassificados ganharam também as redes sociais.
Agora, viraram livro!

E é com muito orgulho que venho anunciar que está aberta a pré venda desse novo livro! E o preço é bom! Se fosse possível adquirir cada jornal onde um desses poemas coloriu a sessão de classificados, o investimento seria em torno de R$150,00. Mas isso é impossível. Ademais, o Grupo Editorial Letramento nos fez a gentileza de reunir todos poemas em um belíssimo exemplar que será comercializado pela bagatela de R$24,90!

Então tá fácil, agora é só clicar na capa do livro (abaixo) e reservar o seu exemplar!

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Abraços!

Bruno Félix

Viva o Brasil

Apesar de tudo
Viva o Brasil
Que nos abriga
Nos alimenta
Nos aquece
Sob o anil do céu
De sua bandeira
Da mesma maneira
Que um bordel
Abriga cada rameira

Viva o Brasil!
Que nos explora
E nos bofeteia
Que nos esfola
E nos prende à peia
E assim mesmo
Ficamos
Amamos
Na esperança de que em alguma noite
Alguém se iluda
Ou até nos ame de verdade
Tire a gente dessa vida
Arrume os nossos dentes
E nos deite eternamente
Em esplêndidos lençóis
Ao som do mar
Em alguma terra distante

O Silêncio da Espera

Em frente ao hospital
Um homem são espera em seu carro
Protegido do sol pelos vidros escuros
E pela barba bem aparada
Do clima, pelo ar condicionado
Do silencioso caos da cidade
Por um poema que Tom Waits canta
Em seu moderno sistema de som
No fundo ele agoniza
Enquanto escolhe
Uma caixa de vinhos por um aplicativo
Após ler as últimas notícias
Enquanto espera
Enquanto Armani o estrangula
Com a fina seda de sua gravata
E o homem continua esperando
Consciente de que tudo o que pode fazer
É esperar

Na praça ao lado
Ninguém sabe de sua dor
Nem mesmo o outro homem
Que acordou e viu um carro parado
Esperando
Enquanto ele mesmo espera por algum trocado
Protegido do sol
Pelo frio concreto do banco
E pela barba negra que nunca apara
Do clima, pelo caderno de notícias
Do caos da cidade, pelo silêncio da embriaguez total
Que lhe canta poemas em outras línguas
Enquanto a vida lhe estrangula
Com os trapos que lhe são doados
Enquanto ele espera se encontrar
Consciente de que todas as suas dores
Só hão de doer em si mesmo
Posto que ninguém o espera
E não há ninguém para ele esperar.

 

Blues para Ferreira Gullar

Triste.
Impossível traduzir o tamanho dessa perda.
Ficamos com a parte permanente dele.
Fica a vaga da cadeira 37.
E mais um ciclo findo.
Ficam poemas lindos, poemas sujos, poemas limpos.
Fica uma dor maior que a de um rubi cravado no umbigo.
Descanse em paz, poeta lido, poeta amigo,
Nesse ciclo não deu tempo,
Mas eu sempre quis ter te conhecido.

“Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?”