Anistia

leaves_in_the_darkness_by_geo_devin-d5wx35e.jpg

É preciso que os homens se compadeçam dos anjos
É preciso que se restitua a cegueira plena aos corações
Uma revascularização nas artérias dos sonhos
Esse tecido embrutecido pelos contratos e códigos
É preciso tapar nossos olhos às flores e aos abismos
Para darmos crédito aos poetas que já gozam da fortuna
De uma irreversível catarata cardíaca

É preciso que neguemos as oferendas
E que perdoemos as dívidas que impusemos aos deuses
Para que esse outono desvairado
Deite folhas secas dos cartórios divinos
Timbradas com um carimbo de sangue escrito “perdão”
Para que as recolhamos num ato de amor
Ou as trituremos com os pés, como quem diz:
“Não há o que se perdoar”

É preciso que essa cegueira se espalhe
Para que a humanidade se tateie
Se apare pelos braços a cada queda
Se puxe para a superfície ou se afogue junto
De mãos dadas, em busca da mesma justiça
Do mesmo abrigo, do mesmo pão
Ou da liberdade, se houver liberdade
Entre essa terrível cadeia de irmãos

Contudo, será preciso
Que se adube o solo com lágrimas de amor
Com as folhas timbradas de Deus
Com os tecidos dos corpos, sonhos das almas
Com tudo aquilo que tivermos em mãos, calos
Para que a próxima primavera
Seja enfim a primavera primeira

Remoção

É preciso arrancar essa flor-de-lis
Marcada a ferro quente
É preciso amanhecer um novo dia
Com uma nova cicatriz
Mesmo que custe um corte rente
Aos ossos
É preciso arrancar pela raiz
E suportar uma nova dor
Superar essa marca ardente
Talvez arrancando-a do couro
Essa marca também se apague
No coração de quem a desenhou.

Micro ensaios I: da escrita

Micro ensaios:

I – Da escrita

É mister o equilíbrio
Entre o doido e o douto
Pra que se crie um novo Dosto
Buscar a perfeição
Até que se perca a feição
Afeiçoar-se à escrita
Escravo, síndrome de Estocolmo
Estocando a duras penas
É preciso vida e erudição
Mas cuidado:
O excesso de rudimentos
Pode torná-lo rude.

Leonid_Pasternak_001

Imagem: Leonid Pasternak – The passion of creation, óleo sobre tela.

Pequena reflexão

Às vezes encaramos os pequenos acontecimentos da vida assim como os descrevi: pequenos. Ou pior: por serem pequenos, muitas vezes sequer os encaramos. Refleti hoje sobre isso ao chegar em meu trabalho e ouvir meu cd tocando… Lembrei-me de quando eu não tinha coragem de cantar. Do tempo que perdi até me “destravar” e tomar umas aulinhas de técnica vocal depois de adulto. Tudo isso porque a primeira vez que ouvi minha voz cantada em uma gravação, não gostei. Não me acostumava a ouvir minha própria voz. Interessante como uma coisa tão pequena pôde me afetar por tanto tempo. Mais interessante ainda é o ponto para onde levei minha pequena reflexão:

Acostumar-me a ouvir a própria voz cantada foi um pequeno acontecimento que jamais devo menosprezar: Se eu tivesse desistido ali, o que seria de mim hoje fazendo poesia e tendo que conviver diariamente com os gritos da própria alma?

Estado de emergência

Falta coragem

De fazer falta

Falta a fala

Falta.

Faltam pecados

Faltam padres

E pecadores

Faltam pescadores.

Falta água.

Falta teto.

Falta tudo.

Falta nada:

Sobra.

Sobram caras

Assombradas

Sombras

Taras.

Andam soltos velhos fantasmas

De um tempo em que não faltava

A boa e velha vergonha na cara.