Carminha Dolores

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O sonho dela era ser cantora
Lírica
Desde pequena, cresceu pequena
Querubim
Carmen, Carminha
Vivos lábios carmim
Voava a vida
Entre aromas de jasmim
Cuida da mãe
Triste criança sem pai
Sonha sozinha
Esfrega a casa
De cada vizinha
Recolhe a migalha de cada patrão
Recobre o corpo
Protege a honra
Chora sozinha
O sonho dela era
Um sonho de amor,
Talvez
O amor não exista.

Será o amor
Aquele bicho incoerente?
Que baforou obscenidades
Ameaças, feridas, urros
Dores e dores mais
Dolores
Dona de sonhos tão vivos
A mãe morta coberta de flores
O ventre crescido
E uns poucos penhores
Voa, Carminha, voa
Nas asas de um querubim
Envelhece sem pátria
Sem muitos sabores
Mas assume-te Carmem!
Com todas as rugas
Com todos os calos
Voa!

Sorrindo um riso carmim
O perfume da pele
É o mesmo jasmim
E o sorriso do filho
Só te sente o amor
Não te sabe o passado
E só te sabe aplaudir
Pelas pernas que tem
Pernas que a ele o destino negou
Empurra teu filho,
Mas canta!
Canta, Carmen
Canta, que o público te ama
O melhor público que já existiu
Que te aplaude com braços frágeis
E um sorriso maior que as partituras
Sorri, Carmem!
Sorri para a vida que
Diga lá, não foi tão dura
Nesse imenso palco
Onde mãe e filho cantam
Um jardim de lírios
Sem que lágrimas molhem as flores

Blues para Ferreira Gullar

Triste.
Impossível traduzir o tamanho dessa perda.
Ficamos com a parte permanente dele.
Fica a vaga da cadeira 37.
E mais um ciclo findo.
Ficam poemas lindos, poemas sujos, poemas limpos.
Fica uma dor maior que a de um rubi cravado no umbigo.
Descanse em paz, poeta lido, poeta amigo,
Nesse ciclo não deu tempo,
Mas eu sempre quis ter te conhecido.

“Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?”

 

Noturno nº1

IMG_3803Notas soltas pela madrugada
Versos espalhados no colchão
Sinto-me um poeta na calçada
Recolhendo estrofes pelo chão

Teu perfume em cada almofada
Triste fonte de inspiração
Solto notas pela madrugada
Pelas cordas do meu violão

Escrevo uma canção desesperada:
O copo, o corpo, a culpa, a solidão
Solidificando a minha mágoa
Recolhendo os versos do colchão.