Anistia

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É preciso que os homens se compadeçam dos anjos
É preciso que se restitua a cegueira plena aos corações
Uma revascularização nas artérias dos sonhos
Esse tecido embrutecido pelos contratos e códigos
É preciso tapar nossos olhos às flores e aos abismos
Para darmos crédito aos poetas que já gozam da fortuna
De uma irreversível catarata cardíaca

É preciso que neguemos as oferendas
E que perdoemos as dívidas que impusemos aos deuses
Para que esse outono desvairado
Deite folhas secas dos cartórios divinos
Timbradas com um carimbo de sangue escrito “perdão”
Para que as recolhamos num ato de amor
Ou as trituremos com os pés, como quem diz:
“Não há o que se perdoar”

É preciso que essa cegueira se espalhe
Para que a humanidade se tateie
Se apare pelos braços a cada queda
Se puxe para a superfície ou se afogue junto
De mãos dadas, em busca da mesma justiça
Do mesmo abrigo, do mesmo pão
Ou da liberdade, se houver liberdade
Entre essa terrível cadeia de irmãos

Contudo, será preciso
Que se adube o solo com lágrimas de amor
Com as folhas timbradas de Deus
Com os tecidos dos corpos, sonhos das almas
Com tudo aquilo que tivermos em mãos, calos
Para que a próxima primavera
Seja enfim a primavera primeira

Remoção

É preciso arrancar essa flor-de-lis
Marcada a ferro quente
É preciso amanhecer um novo dia
Com uma nova cicatriz
Mesmo que custe um corte rente
Aos ossos
É preciso arrancar pela raiz
E suportar uma nova dor
Superar essa marca ardente
Talvez arrancando-a do couro
Essa marca também se apague
No coração de quem a desenhou.

Soneto ao Novo Amor

Foi de súbito que um dia senti

Que nossas longas e várias conversas

Sobre os assuntos mais triviais

Ganhavam enorme importância

.

Senti em seus gestos mais naturais

Bem mais que beleza, mais que elegância

Nossas bocas fremiam incontroversas

Foi assim que não resisti

.

No momento em que a voz emudece

Quando o toque das mãos é prece

E no brilho dos olhos a alma fala

.

No fundo do peito a saudade cala

Toda angústia ou dor se esquece

Nesse instante o amor floresce.

Noturno nº1

IMG_3803Notas soltas pela madrugada
Versos espalhados no colchão
Sinto-me um poeta na calçada
Recolhendo estrofes pelo chão

Teu perfume em cada almofada
Triste fonte de inspiração
Solto notas pela madrugada
Pelas cordas do meu violão

Escrevo uma canção desesperada:
O copo, o corpo, a culpa, a solidão
Solidificando a minha mágoa
Recolhendo os versos do colchão.